
Ninguém adivinha como falar cansa. Falar por ser obrigado a falar. No início, seca-se a boca. Depois é a saliva, como ao beber de uma poça da berma do caminho e sentimos a areia do fundo a avisar a língua de que a água se acaba. Aperta-se o estômago como a preparar-se para um murro, seco como se dele nascessem as palavras, fantasmas que ganhassem vida ao roçar pela garganta.
É assim que começa "Tempo de fogo", o primeiro romance de Amadeu Ferreira, autor de várias obras em mirandês e traduções para a segunda língua de Portugal. Nascido em 1950, em Sendim, no Concelho de Mirando do Douro, Amadeu Ferreira é, no presente, Vice-presidente do Conselho Directivo da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, Presidente da ALM - Associaçon de Lhéngua Mirandesa e Professor Convidado da Universidade Nova de Lisboa.
A sua dedicação ao mirandês é mais conhecida sob a capa do pseudónimo de Fracisco Niebro. Em homenagem e em nome da preservação da sua primeira língua, publicou vários livros de poesia, contos infantis, passando, ainda pela banda desenhada. Entre eles, destacam-se, Cebadeiros e Por dentro dos calos - os meus favoritos -, L Segredo de Peinha Campanha, com ilustrações de Sara Cargueiro, ou a tradução de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.
Este primeiro romance foi escrito de uma assentada, por assim dizer. Em conversa com o autor, fiquei a saber que o ponto de partida para este livro resultou de uma pesquisa no âmbito do mirandês. A descoberta de documentos do Tribunal da Inquisição e, em particular, a história de um frade que é condenado à fogueira acenderam o rastilho para a criação deste magnífico romance. Muitos dos personagens que fazem parte desta trama existiram, e alguns factos são verídicos, mas a construção do enredo é da autoria de Amadeu Ferreira.
Este romance leva-nos numa viagem ao norte do país, em finais do século XVI e início do século VXII. Vivem-se tempos sufocantes, de denúncia, ameaça de prisão, perseguições permanentes que culminam num clima de grande incerteza e insegurança. A Inquisição goza de grande poder e está implementada em toda a Península Ibérica. A mentira passeia pelas ruas (da aldeia) como sincelo que até a alma congela, tudo devido ao pavor que se assentou nos poiais como um fantasma. Em boa verdade, cada qual pensa que se salva por acusar os outros, mas têm (sido) todos a eito arrastados pelos longos caminhos até à mesa da Inquisição de Coimbra. O desinteresse passou a habitar as casas e ninguém quer saber de ninguém. Os pais pensam que é melhor acusar os filhos e estes os pais.
É neste ambiente que conhecemos Frei António. No seu íntimo sabe a sentença que o espera. O passado que lhe parecia tão distante, volta agora para o atormentar e para lhe ditar a sorte. No caminho, conhece Laurinda, uma mulher esmagada pelo sofrimento causado pela perda do marido que logo após o casamento é assassinado, e que todos dizem estar possuída pelo demónio. Por vergonha e ignorância, a família guarda-a como um animal.
A língua aparece como um modo de curar, mas também como castigo, quase uma maldição, pressentindo-se as dificuldades no confronto das línguas presentes: o português, o castelhano e o leonês/mirandês.
Três séculos depois, um professor primário resgata um manuscrito onde aquele frade tentou escrever, na prisão, um tratado das artes de curar pela fala, fazendo comentários relativos à sua prática e continuando a questionar-se sobre o sentido da vida e o problema de Deus.
Ao ler este romance, temos a sensação de estar diante do testemunho que alterou e marcou a maneira de ser dos portugueses até aos dias de hoje. Está escrito de forma simples e fluída e a engrenagem das situações e das personagens embarcam o leitor numa leitura ávida e entusiasta . É obrigatório lê-lo.
Ficamos a aguardar pelo próximo.
Boas leituras!